Noite de Tertúlia: “Futebol: dentro e fora das 4 Linhas” – Círculo Cultural e Clube União Mirense

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No Clube falou-se de futebol

“Futebol: dentro e fora das quatro linhas” foi o tema da tertúlia do passado dia 1 de Junho, no Clube União Mirense. Integrada no Ciclo de Tertúlias sobre os mais diversos temas, e desta feita em parceria com o Círculo Cultural Mirense (C.C.M.), este serão contou, no painel principal, com a presença dos ilustres Shéu Han (antigo jogador e ex-membro da equipa técnica profissional do S.L.Benfica), Luciano Gonçalves, Presidente da Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, e João Querido Manha (natural de Minde) jornalista, ex-Director do Jornal Record e comentador desportivo na TVI.

Com início cerca das 21h30, e após as boas-vindas, David Reis, Pres. da Direcção do CCM  fez a apresentação do que se pretendia: um encontro para dialogar sobre futebol, sem constrangimentos, com abertura para debater o bom e o menos bom. Os três convidados principais, agradecendo o convite que lhes foi dirigido, começaram por parabenizar o U.R.Mirense, representado no serão, os dirigentes do C.U.M. e do C.C.M. por proporcionar este tipo de debate. Realçaram a formação desportiva dos mais novos, que consideram bastante importante…“É normal que um pai sonhe ou deseje que o filho seja jogador de futebol e é bom incentivar os jovens à prática do desporto. Mas nunca se deve colocar isso como um objectivo de vida.” como disse João Querido Manha. O conhecido jornalista desportivo começou por falar do ‘Ser bom jornalista’ que “passou de algo romântico, empírico…a algo, digamos, impessoal. Vivemos um tempo muito complicado na Comunicação Social, no que respeita ao papel que os Media têm ou podem ter na Política, na Economia ou no Desporto. Hoje, tudo é comunicação!”

Uma das primeiras questões lançadas por David Reis, foi a questão da depressão e dificuldades de comunicação nos futebolistas. Shéu Han, com uma longa e frutífera carreira como futebolista, confessou ter vivido uma situação pessoal muito crítica, na década de ’80. Sentia que era depressão, mas na altura pouco se falava disso. E afirmou “Hoje em dia, é muito difícil chegar a uma conclusão lógica para debelar este tipo de situação.” Já Luciano Gonçalves confirmou que “Cada vez é mais recorrente, porque existe uma pressão enorme sobre os jogadores para serem ‘homens à força’ ou ‘obterem resultados à força’. O Presidente da Associação de árbitros de Futebol lembrou que “Também temos muitos problemas desses na arbitragem!”, acrescentando que, embora vivendo em Brancas (Batalha) já se viu obrigado, a ter seguranças na sua residência, durante alguns dias.

No âmbito da Comunicação Social, João Querido Manha referiu que actualmente, os jornais desportivos têm uma influência algo diminuta e que as Televisões dominam:

“As famílias também sofrem o chamado ‘bullying televisivo’. Os jovens jogadores, os árbitros ou dirigentes são ‘apanhados’ por jornalistas e são abordados por adeptos em qualquer lado. Não é um problema do Desporto ou da Comunicação Social, mas da Sociedade.”

Sobre a comparação com os tempos de outrora, os intervenientes são unânimes em reconhecer que, há algumas décadas, a vida do desporto era circunscrita a isso – ao desporto – e que hoje não é assim. Existe um leque de marcas comerciais existentes à volta dos atletas, acabando estes por ter “uma actividade à parte”. 

João Querido Manha lembrou a luta e a dificuldade que se sentia para ser reconhecido como jornalista desportivo, dando o exemplo do Campeonato Mundial de Futebol em Inglaterra, em 1966. “Era mesmo necessário ter uma credencial e ser associado (como hoje, também) do CNID – Clube Nacional de Imprensa Desportiva.” E sobre a forma de chegar aos jogadores, o ex-Director do RECORD disse “As modalidades desportivas de maior impacto internacional praticam o contrário do que se nota em Portugal. Qualquer atleta que chegue aos circuitos começa a ter uma formação muito eficaz e profunda de relação com os Media, desde cedo, como por exemplo, no Ténis.”

Uma das questões abordadas foi precisamente a pressão dos Media sobre os jogadores e respectivos clubes. “Os jornais tentam dar o que o público quer ou lê e, efetivamente, os meios de Comunicação Social têm de reportar o que acontece nos Clubes. Pode haver 40 ou 48 páginas de conteúdo nos jornais e não ser inventado!” referiu João Querido Manha. Mas acrescentou “Todavia, temos de reconhecer que, hoje, há muitas denúncias falsas (e mesmo anónimas) e notícias falsas…e nunca mais se repõe a idoneidade das pessoas. Hoje não se chega facilmente a um jogador. Podemos falar com um membro da família ou com a Entidade Patronal que intervém e até evita que eles falem.”

Luciano Gonçalves corroborou:

“Nos dias que correm, há uma sede constante de notícia, de polémica e, de minuto a minuto surge uma notícia nova. Há situações, em que quase nem se consegue dizer o que quer que seja sem que haja quaisquer repercussões na semana seguinte.”

João Querido Manha lembrou que a classe dos árbitros é único organismo que não possui um departamento de comunicação, na área do Futebol, logo não dispõe de ‘training’ nessa matéria.

Após um breve intervalo, o segundo painel contou com a presença de “Cabé” (Carlos Alberto Moço, natural de Amiais de Baixo, Santarém), antigo jogador da U.R.M. e actual treinador; António Lima da Silva, actual Pres. da Direcção da U.R.M. e Mário Cruz (“Mário Xavier”) antigo dirigente da U.R.M. e da União de Leiria. O objectivo era dar a conhecer um pouco a evolução da modalidade de futebol na nossa terra, ao longo dos anos, com visões e pareceres de gente com experiência na matéria. “Cabé”, de que muitos se lembram, recordou os gloriosos tempos no Mirense, onde chegou ainda muito jovem.

“Tinha 17 anos quando fui campeão da 3ªDivisão Nacional, pela União Recreativa Mirense, na época 1988/89”.

O antigo jogador é actualmente treinador na U.R.M., clube presidido por António Lima que se regozija da excelente equipa técnica, do plantel, do grupo de dirigentes e mesmo da claque do Mirense, que muito contribuíram para o rejuvenescimento do clube e que desenvolveu um óptimo trabalho, alcançando excelentes resultados nos últimos três anos. António Lima agradeceu o convite e oportunidade para falar um pouco do clube da nossa terra, não deixando de referir as dificuldades que se têm superado com a ajuda de todos. O U.R.M. tem estado a ultimar a sua sede, requalificada nos últimos dois anos, bem como toda a área envolvente do estádio com condições dignas para os sócios e apoiantes do clube.

A palavra de Mário Cruz prendeu-se com aquilo que entende ser fundamental para um dirigente ou jogador: a paixão que se tem por um clube. “É necessário ter paixão, muita coragem e discernimentos para conduzir os destinos de um clube e gerir situações extremas de dificuldades a vários níveis, como as que se viveram na U.R.M. e que foram superadas” referiu Mário Cruz, membro da União de Leiria-S.A.D.. O serão terminou com entrega de lembranças aos convidados que, comovidos e profundamente agradecidos, confessaram “sentir-se em família” nesta tertúlia, que consideraram um momento muito salutar e inesquecível.


O nosso muito obrigado a toda a Direcção do Clube União Mirense pelo empenho em desenvolver e organizar esta conversa sensacional. Especial obrigado também a todos os convidados, por terem confiado nestas duas Associações, e terem visitado a nossa vila, que tão bem os acolheu!