40 Anos de Círculo: Entrevista ao Portomosense

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Ana Vieira, repórter do Jornal “O Portomosense”, entrevistou o presidente da Direcção do Círculo Cultural Mirense, David Reis, no âmbito do programa do 40º Aniversário da Associação.


Ana Vieira, Portomosense (AV) – Como correu esta “festa de aniversário”?

David Reis (DR) – O dia de 9 de Junho foi muito especial. O Círculo Cultural Mirense, os seus Sócios e a nossa Comunidade não poderiam ter desejado um melhor culminar do nosso programa do 40º Aniversário da Associação, não tenho dúvidas disso.

Durante o dia, tivemos aulas abertas das nossas valências regulares, nomeadamente do Yoga com a professora Sílvia Morais, Pilates com a professora Rosete Matias e Treino Funcional com a Instrutora Diana Correia. A manhã incluiu também a nossa actividade mensal de Música para Bebés, este mês com cenários e música dentro da temática do Circo. Depois pela tarde tivemos apresentação do novo programa da nossa Escola de Pintura e Artes Plásticas: aproveitámos o cenário da Exposição de Pintura dos Alunos e Ex-Alunos da Pintura do Círculo Cultural para apresentar a nova professora e coordenadora da valência, Zélia Bica. Finalmente, o espectáculo que encerrou o Aniversário do CCM foi levado a palco pelo Círculo juntamente com o Coral Gaudia Vitae de Mira de Aire e com o Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro de Minde: foi muito bonito, intenso e rico. Este evento único, a que chamámos “A Poesia Também Dança”, foi uma junção única de muitas das coisas que estas 3 Instituições sabem fazer brilhantemente: Poesia, Dança, Canto, Declamação, Representação… uma “coreografia” de talentos que pode ter sido, julgo eu, uma das melhores noites que a Casa da Cultura em Mira de Aire já viu. 

Depois deste espectáculo, a Direcção do Círculo Cultural Mirense quis reservar o serão para fazer uma simbólica homenagem aos Fundadores da Instituição e a outras pessoas que primaram sempre por elevar a actividade e os valores do CCM. Quem já passou pela “vida” do Associativismo certamente saberá os sacrifícios que é necessário fazer em prol da Cultura e da Comunidade que representamos e amamos! A homenagem feita a estes Homens e Mulheres foi simbólica, face à imensa dedicação e ao trabalho desenvolvido por todos durante estas mais de 4 décadas (mesmo que já estivesse em actividade, o Círculo só foi oficializados anos depois do 25 de Abril de 1974). A Direcção do CCM quis agradecer a todos sem reservas: tivemos o prazer de contar não só com alguns dos Fundadores do Círculo Cultural Mirense ainda vivos, mas também com familiares daqueles que infelizmente já não estão entre nós. Foi um fim de noite muito bonito, e todos nós nos sentimos imensamente honrados por chamar o nome de cada um dos Fundadores da Instituição.

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Exposição “40 Anos, 40 Momentos” do CCM na “Igreja Velha” de Mira de Aire

AV – Em que se baseou? Qual o objetivo?

DR – O objectivo principal destes 4 meses foi celebrar a nossa história e quem dela fez e faz parte. Todo o programa da Celebração do 40º Aniversário acabou por ser um exemplo das diversas actividades que o Círculo Cultural Mirense desenvolveu durante a sua existência: valências regulares, exposições, debates, mostras de talento, espectáculos. Em Março, começámos por fazer uma retrospectiva da história da Instituição, em que o Centro de Exposições de Mira de Aire (a conhecida “Igreja Velha”) recebeu uma selecção dos 40 momentos mais importantes dos 40 anos de existência da Associação. Depois, em Abril, aproveitámos para celebrar o aniversário da Vila, e organizámos um debate sobre as Associações de Mira de Aire, em que foi discutido por todos o papel das mesmas na Cultura e na nossa Identidade local. No mês seguinte, a Casa da Cultura voltou a receber-nos, desta feita para uma agradável Feira do Livro, e Junho terminou com o Dia Aberto do Círculo Cultural Mirense e com as celebrações finais do 40º Aniversário.

É nosso apanágio ajudar ao desenvolvimento não só da Cultura em Mira de Aire mas sobretudo na nossa região e na Comunidade formada por ela. Por isso mesmo, tenho que agradecer em nome do Círculo Cultural Mirense a todas as Instituições, Associações, empresas e pessoas em nome individual que ajudaram e contribuíram para a elevação das nossas celebrações. As Associações que colaboraram connosco directamente no programa foram parte integrante do sucesso de cada evento: a direcção da MataJovem, o Coral Gaudia Vitae (e o excelente trabalho dos seus elementos e do maestro António Lourenço Menezes), o CAORG – Centro de Artes e Ofícios Roque Gameiro (e à arte e dedicação da Catarina Ribeiro), a Companhia OME Dual (a sublime Maria Gameiro), e também as palavras do Sérgio Guerreiro e declamação da Andresa Olímpio. Depois, à Junta de Freguesia de Mira de Aire e ao seu executivo, que desde o primeiro dia se mostraram solícitos a ajudar face aos desafios que enfrentamos. E finalmente à Câmara Municipal de Porto de Mós e respectivo Pelouro da Cultura, que têm mostrado uma abertura muito positiva e dinamismo de referência para tudo o que temos desenvolvido e os problemas que lhes temos apresentado. Temos também um agradecimento especial a diversas empresas que nos ajudaram imenso, sem nada solicitarem em troca: um especial agradecimento à Palma Artes Gráficas, à Saregrafia, e ao Restaurante Marisqueira Jardim.

Acrescento que outro dos objectivos destas celebrações foi aproveitar a exposição da Associação de forma a alertar não só os Sócios mas todos os que nos possam ajudar para a necessidade urgente de intervenção e melhorias nas condições físicas do edifício da nossa Sede. Estamos actualmente com algumas salas que estão longe de ter as condições mínimas, ainda por mais num edifício que acolherá no próximo ano 3 Associações e mais de 12 actividades distintas. Estamos a desenvolver um plano de intervenção, e apelamos a todos que nos possam ajudar para melhorarmos as condições das instalações.

AV – Que balanço fazem destes 40 anos?

DR – Estas últimas 4 décadas mostraram os altos e baixos de uma sociedade e de uma Vila em constante mutação e a precisar de se (re)inventar: certamente será difícil fazer um balanço preciso de tudo o que uma Instituição como o Círculo Cultural Mirense já passou, porque este também se confunde com a história de Mira de Aire.

No entanto, durante a preparação da exposição d’Os 40 Anos, 40 Momentos do CCM”, conseguimos perceber uma ínfima parte da história não só da Associação, mas também das pessoas e da Cultura Mirense de há 7, 8 ou mesmo 9 décadas atrás. O embrião do CCM, que no início da década de 70 se chamava “Círculo da Cultura”, era resultado da manifestação plural de inúmeras actividades relacionadas com teatro, música e folclore em Mira de Aire. Os 40 anos “oficiais” deste Círculo foram, em parte, o resultado da necessidade de se organizar uma actividade cultural muitíssimo rica com 100 anos de existência: as peças de teatro amador e os grupos de folclore; as bandas e as típicas; as filarmónicas, as orquestras, e tantas outras. Se posso fazer um balanço simplista do papel do Círculo Cultural Mirense na complexidade que são 40 anos de actividade, diria que a missão de fundo foi (e está a ser) cumprida: exemplo disso foi o reconhecimento da Associação como Instituição de Utilidade Pública. Além disso, sentimos que todo este ADN cultural está ainda presente na população e comunidade de Mira de Aire, por isso… venham mais 40!

AV – O que sentem ao saber que estão à frente de uma organização que conta com 40 anos de história?

DR – Como já disse de certa forma, percebemos que é uma Instituição carregada de história. E à medida que vamos percebendo que a história do CCM é indissociável da história de Mira de Aire e da região é-nos impossível negar que fazemos parte de um grupo com grande responsabilidade. Porque somos participantes da Cultura no presente, mas também porque temos que ser uma espécie de veículo guardião da história e do passado: temos que a preservar e garantir que não se perde. Para nós, Direcção, é recorrente discutirmos a nossa actividade e as nossas ideias internamente como um exercício de humildade face ao passado cruzado com optimismo (e até alguma rebeldia) do que queremos para o futuro.

AV – Que tipo projetos estão a preparar para o futuro?

DR – Temos duas missões muito importantes. A primeira, que já está a ser colocada em prática de alguns anos para cá, tem a ver com a modernização transversal do Círculo Cultural Mirense: melhoria não só das suas instalações – que será o projecto mais árduo dos próximos tempos – mas também da sua actividade, do seu posicionamento e papel na Cultura local e regional. Esta primeira missão é muito influenciada pelas pessoas com quem temos tido oportunidade de colaborar e estabelecer projectos: exemplos do espectáculo de 9 de Junho com o Coral Gaudia Vitae e o CAORG, da nossa Escola de Rock, do protocolo com o Grupo de Teatro de Mira de Aire “Um Par de 5”, ou da nova Escola de Pintura e Artes Plásticas.

Depois, a segunda missão, aquela que considero o nosso objectivo de fundo, a ideia central do Círculo Cultural Mirense: a Acessibilidade da Cultura. Uma ideia simples e que tem a ver com os valores dos Fundadores que ainda agora homenageámos. Temos que estabelecer bases e canais para tornar a Cultura (mais) acessível a todos, e isso passa por continuar a formar pessoas para as artes e para a música, por ter professores que continuem a desenvolver as suas actividades socio-culturais e formações, por ajudar e colaborar com outras associações no desenvolvimento de actividades. Os próximos anos serão vitais para continuarmos a dar força ao projecto da Escola de Rock e a revigorar a Escola de Pintura. Temos também planos para o Teatro, que continuará a trazer espectáculos novos (ou, quiçá, antigos…?) à Comunidade.

AV – Acham que a população tem aderido bem às atividades do Círculo Cultural Mirense?

DR – Sim e não. Importa saber se os objectivos das actividades são cumpridos ou não. Parte das nossas actividades são desenvolvidas para dar oportunidade às pessoas – Mirenses e não só! – de aproveitar e desfrutar o que tentamos organizar (partindo do princípio que o que organizamos é, de facto, pertinente). Se essas oportunidades são aproveitadas e se esses eventos são correspondidos por parte da população, isso é uma outra história com mais do que um capítulo. Não temos problemas em aceitar que determinados eventos em que colocámos grandes expectativas foram pouco participados, e outros que considerávamos como sendo “de nicho” tiveram resposta muito superior ao esperado. Parte importante do nosso trabalho será sempre “educar” a Comunidade para a participação mais activa na Cultura, seja ela veiculada pelo Círculo Cultural Mirense ou não. Outra parte será perceber que a Cultura nunca poderá ser analisada unicamente com base no retorno financeiro ou no número de voltas dadas por um torniquete da entrada de um Centro de Exposições.

Um bom exemplo disso foi uma exposição sobre Violência no Namoro que organizámos em Fevereiro: “Respeita-me, Meu Amor”, composta por fotografia de Andresa Olímpio e textos do Sérgio Guerreiro (ele próprio da Direcção do CCM). Essa exposição esteve aberta à população mirense, tendo tido alguma resposta positiva. No entanto, esteve patente em Bibliotecas das Escolas de Mira de Aire, de Porto de Mós e do Instituto Educativo do Juncal, em contacto com o público-alvo mais importante: os jovens adolescentes. A mesma exposição resultou na visita dos autores e de elementos do Círculo Cultural Mirense a essas 2 últimas instituições de ensino (Porto de Mós e Juncal), fazendo com que conseguíssemos não só veicular a mensagem a cerca de 300 alunos do Concelho, mas também discutir activamente o tema frente a frente. Aqui sim, a adesão foi brutal: muito mais do que os números – muito bons! – foi a óptima recepção por parte das Direcções das Escolas à colaboração com o Círculo Cultural Mirense, e a resposta activa e interessada por parte dos alunos.

O ponto alto de uma surpreendente adesão das pessoas foi, indiscutivelmente, o serão cultural de aniversário, a 9 de Junho. Ficámos todos de coração cheio e recebemos palavras de grande incentivo e de reconhecimento de muitas pessoas por tudo o que o CCM fez nos seus 40 anos, trabalho esse que foi fruto de muitas Direcções e muito empenho dos ex-dirigentes e ex-colaboradores. Sentimos também que tocámos o coração e as memórias dos Fundadores lá presentes e de muitas famílias que fizeram parte da história desta Instituição. Serão momentos para sempre recordados. Agradecemos ao Jornal ‘O Portomosense’ a oportunidade de dar a conhecer um pouco o Círculo Cultural Mirense – Instituição de Utilidade Pública, por ocasião deste 40º Aniversário da sua fundação.